top of page

TRANSITANDO PELA PASSAGEM DE VÊNUS EM 1874 COM O ASTRÔNOMO BRASILEIRO D’ALMEIDA

  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

Maria Romênia da Silva*

 


Durante o ano de 1874, seis missões astronômicas francesas foram enviadas para diversos pontos do globo, a fim de observar a passagem de Vênus. Vamos analisar as práticas que envolvem as atividades desenvolvidas pela comitiva enviada ao Japão. A missão científica francesa tinha por objetivo a resolução de um problema que preocupava a comunidade de astrônomos no século XIX: a medição da paralaxe do Sol[1], que pode ser realizada por meio da observação da passagem do planeta Vênus em frente ao Sol, o chamado “trânsito de Vênus”. Para realizar essa medição com máxima precisão, foi necessário o aprimoramento das técnicas e tecnologias empregadas durante as observações.


No que se refere aos instrumentos levados pela comitiva francesa, temos a seguinte distribuição: para a parte astronômica, a Comissão da passagem de Vênus deu a cada estação de primeira ordem (onde todos os pontos de contatos poderiam ser observados) um equatorial de 8 polegadas e um de 6; instrumentos meridianos, cronômetros, cronógrafos, entre outros. Para a parte de fotografia, foi disponibilizado um dispositivo com cerca de 3,5 cm de diâmetro que fornece em uma placa de prata imagens do Sol; um pêndulo astronômico de Bréguet; um círculo geodésico de Brunner; uma coleção muito completa de instrumentos meteorológicos e fotográficos; um revólver fotográfico, entre outros instrumentos.


O astrônomo brasileiro Francisco Antônio de Almeida Júnior foi o responsável por manusear o instrumento científico (figura 1) denominado “revólver fotográfico ou revólver astronômico” de Jules Janssen, que foi utilizado para fotografar o trânsito de Vênus em 09 de dezembro de 1874, em Nagasaki, no Japão. Com esse dispositivo, foram obtidas imagens que permitiram visualizar a passagem de Vênus em frente ao Sol.

 

Figura 1: Desenho mostrando Francisco Antônio de Almeida Júnior utilizando o revólver fotográfico durante a missão de 1874 em Nagasaki.


Fonte: Imagem publicada na revista La Nature, em 1875[2]

 

D’Almeida, o Revólver Fotográfico de Jules Janssen e a cinematografia astronômica

 

Mas quem era, afinal, Francisco Antônio de Almeida Júnior? D’Almeida, como ficou conhecido na França, era doutor em Filosofia, engenheiro, astrônomo e professor na Escola Politécnica da Universidade do Brasil[3], durante o Segundo Reinado e a Primeira República. Também desempenhou as funções[4] de escritor, delegado de polícia e militar. Esteve envolvido na política da República e ocupou cargos que não estavam diretamente vinculados à sua trajetória como cientista.


Figura 2: Francisco Antônio de Almeida Júnior.

             

Fonte: Almeida (1879)[5].

 

O principal instrumento científico da missão ao Japão foi o revólver fotográfico. Esse instrumento ficou famoso na França antes mesmo da sua utilização no Japão, visto que foi objeto de várias comunicações na Academia de Ciências e de diversos comentários nas revistas de divulgação científica, à época. Jules Janssen, no final do século XIX, desenvolveu um dispositivo que consistia em um mecanismo de relógio, capaz de tirar 48 imagens em um daguerreótipo (vidro com emulsão sensível), em um intervalo de 72 segundos (72”). O movimento rotatório do dispositivo que permitia a entrada da luz do telescópio no setor da placa sensível foi construído a partir do mecanismo do revólver Colt, razão pela qual o dispositivo de Janssen foi denominado “revólver fotográfico” (Figura 3).

 

Figura 3: O revólver de Janssen.


Fonte: Bulletin de la Société Française de Photographie, t. 22, Paris : Imprimerie Gauthier-Villars, 1876, p. 104.



O dispositivo era considerado simples: a luz do telescópio atingia dois discos giratórios. O primeiro, composto por 12 aberturas regularmente espaçadas, funcionava como um obturador, deixando a luz passar em intervalos regulares para um segundo disco, no qual ficava o material fotossensível. O dispositivo de Janssen, fixado ao solo, é apontado para um “heliostato”, um espelho movido por um mecanismo de relógio para seguir o Sol. Um motor girava ambos os discos, sincronizadamente. O segundo disco girava a um quarto da velocidade do disco do obturador para evitar a sobreimpressão das imagens, enquanto outro dispositivo media o momento exato em que cada exposição foi realizada.


Figura 4: Missão científica francesa para observação da passagem de Vênus pelo Sol no Japão em 1874. Fotografia tirada em Paris.

D'Almeida é o segundo em pé da direita para a esquerda.


 

Dados obtidos a partir das observações realizadas em Nagasaki e a relação entre astronomia e cinema.


Com o revólver fotográfico de Jules Janssen, foram obtidas imagens da passagem de Vênus em frente ao Sol em todos os pontos de contato. No entanto, os resultados dos franceses não foram melhores do que os de outras nações. É de conhecimento que, em respeito à paralaxe solar, os resultados obtidos por todas as expedições, em todo o mundo, não foram muito bem-sucedidos. Os astrônomos ficaram desapontados: o erro de ±0.06" obtido para todas as estações foi menor que o do século XVIII, mas os astrônomos esperavam apenas cerca de ±0.01". O valor encontrado para a Unidade Astronômica (UA) por várias comissões foi de 148 900 000 ± 2 000 000 km (a Paralaxe calculada estava entre 8″,86 e 8″,88)[6].


O astrônomo Janssen foi o primeiro que, para fins científicos[7], pensou em representar as fases sucessivas de um fenômeno por meios automáticos utilizando séries de imagens fotográficas. Assim sendo, a esse astrônomo é atribuída a honra de ter inaugurado o que hoje se chama de cronofotografia em placa móvel. Uma animação[8] foi produzida com a sequência fotográfica capturada por d’Almeida utilizando o instrumento científico de Jules Janssen, mostrando o trânsito de Vênus em 09 de dezembro de 1874. Essa animação é considerada, atualmente, como um filme de natureza documental produzido com o revólver fotográfico e intitulado A Passagem de Vênus (Figura 5)[9]. Além disso, Janssen pôde observar a coroa solar eclipsada por Vênus antes do primeiro contato, usando um filtro azul violeta e ainda foi capaz de registrar a atmosfera nas placas tiradas durante o trânsito (Figura 6).


A partir de então, o caminho para a “fotografia animada” foi aberto para Muybridge, Edison, Marey e os irmãos Lumière.

 

Figura 5: Passage de Vénus: Data de lançamento: 9 de dezembro de 1874 (mundial) - Diretor: Jules Janssen.


 


 Figura 6: Vênus, com auréola luminosa, mostrada no disco solar em 9 de dezembro de 1874.


 

Fonte: JANSSEN, Jules. The 1874 transit of Venus seen from Japan. In: GUILLEMIN, Amédée, Le Ciel, 5ª ed., Paris: Librairie Hachette & Cie, 1877, p. 946.




*Doutora em Ensino de Ciências e Matemática pela UFRN e professora efetiva da Rede Estadual do Rio Grande do Norte.


Notas

[1] Ângulo que permite medir a distância do Sol em relação à Terra.

[2] FLAMMARION, Camille. Le passage de Vénus: Résultats dês expéditions françaises. La Nature, París, n. 3, pp. 356-358. 1875.

[3] Atualmente vinculada à UFRJ.

[4] Exerceu o cargo de diretor do Diario Official. Foi exonerado dessa função quando o general Deodoro deixou a presidência da República; depois, acusado de entrar na conspiração de 10 de abril de 1892, foi preso e recolhido à fortaleza de S. João.

[5] ALMEIDA, Francisco Antonio de. A parallaxe do Sol e as passagens de Venus. Rio de Janeiro: Typographia do Apostolo: Imperial Lithographia de A. Speltz, 1878.

[6] MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. The Brazilian contribution to the observations of the transit of Venus. In: KURTZ, D. W. (ed.). Transit of Venus: New views of the solar system and galaxy. Proceedings IAU Colloquium. N. 196, Cambridge University Press: Reino Unido, 2004.

[7] TOSI, V. Cinema before Cinema: The Origins of Scientific Cinematography. British Universities Film & Video Council. Londres: Reino Unido. 2005.

[8] Uma animação da sequência fotográfica capturada por d’Almeida utilizando o instrumento científico de Jules Janssen, mostrando o trânsito de Vênus em 09 de dezembro de 1874, pode ser observada em: https://drive.google.com/file/d/1S5vs5iHTLzDZefKCvlsT-7q_B_l0ABbE/view?usp=sharing

[9] Filme documentário produzido com o revólver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Passage_de_V%C3%A9nus. Passage de Vénus: Data de lançamento: 9 de dezembro de 1874 (mundial) - Diretor: Jules Janssen. Fonte: https://www.imdb.com/title/tt3155794/

 
 
 

Comentários


faixa-rilam.jpg

Assine nossa newsletter

Copyright © 2024 rilam.org – Todos os direitos reservados.

bottom of page